Música 8: Não desligue
A sua chamada é importante para nós. Tão importante que a guardamos no fundo da fila. Tem quarenta e três à sua frente.
Três factos. O relatório do Orçamento para 2027 tem um indicador para a Saúde, o primeiro da lista: “aumento do número de utentes com médico de família atribuído”. Não diz quantos, nem até quando. O quadro de referência do SNS diz por ele: 85,37% dos utentes com médico de família em 2026, 2027 e 2028, o mesmo que em 2024. A meta é não sair do sítio. E vários programas do Orçamento medem o sucesso pela taxa de execução orçamental: gastar o dinheiro é o objetivo.
A proposta do livro: o Estado passa a ser medido pelo que entrega e não pelo que gasta. Dez indicadores por ministério, com valor de partida e meta, publicados todos os trimestres: utentes sem médico de família, meses de espera por uma cirurgia, dias para licenciar uma casa, anos para fechar um processo em tribunal. Quem espera tem o direito de saber quanto. E quem manda esperar tem o dever de dizer porquê.
O filme: a música de espera de uma linha do Estado, cantada numa sala de espera de 1996 onde ninguém sai da fila e toda a gente envelhece.
A Última Janela. À venda a 10 de novembro.
Música 7: Voto com o Líder
Sabe quem é o seu deputado? Eu também não. É por isso que ele canta com mais três iguais a ele.
Dois factos. Nas legislativas de 2025, mais de 1,1 milhões de votos não elegeram ninguém: um em cada cinco. Em Portalegre, quase metade dos votos foi para o lixo; em Lisboa, um em dez. O PS teve mais votos do que o Chega e elegeu menos deputados. Isto não é um pormenor técnico: é uma perversão da democracia, e tem um nome, o desperdício de votos.
Duas propostas, as duas no livro. Um círculo nacional de compensação, onde os votos sobrantes de todos os distritos elegem os deputados que faltam, para que nenhum voto valha zero. E círculos mais pequenos, se possível uninominais, para que cada português saiba quem é o seu deputado, o que ele faz e a quem se queixa. Um deputado com rosto é um deputado com conta a prestar, e um partido que sabe que o eleitor vê a cara que escolhe faz listas melhores.
A Constituição permite as duas coisas desde 1997: o artigo 149.º admite círculos uninominais e plurinominais, desde que o conjunto fique proporcional. O que falta é mudar a lei eleitoral, e isso exige dois terços do Parlamento. Ou seja, PS e PSD juntos. Os dois partidos que mais ganham com o sistema que temos.
O filme: um programa de variedades de 1956, a preto e branco, com marionetas. Os fios só aparecem no fim.
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A inteligência artificial pode fazer crescer a economia como nunca. Mas as máquinas pagam-se com poupança, e o que rendem vai para quem as tiver. A forma como poupamos será a reforma da década.
observador.pt/opiniao/quem-v…
O “não” sai de graça a quem o diz. O “sim” pode custar-lhe a carreira. Enquanto for assim, as leis mudam e o porteiro fica.
Música 6: Metade do que amasso
Amasso mais um pão. Peço metade. Dão-me quarenta.
A conta que importa é a do euro a mais: a hora extra, o aumento, a promoção. É aí que cada um decide se vale a pena trabalhar mais. E é aí que o Estado fica com a fatia maior. Um aumento de 100 euros brutos por mês a quem ganha 2.000 custa à empresa 124 euros e deixa ao trabalhador 58. A conta do salário mínimo é da Business Roundtable Portugal. As duas contas são da Business Roundtable Portugal. A partir de uns 3.700 euros brutos por mês, de cada 100 euros que a empresa paga a mais, o trabalhador fica com 40. O resto vai em contribuições e IRS, antes ainda do IVA sobre o que comprar com o que sobra.
A proposta do livro tem nome: o direito a ficar com metade. Em cada euro a mais que alguém ganha a trabalhar, o Estado não deve ficar com mais do que deixa. E o recibo inteiro, com o custo total à cabeça, obrigatório para todos. Vinte e nove grandes empresas já o dão a 90 mil trabalhadores. Quem vê a conta discute-a. Quem não a vê, paga-a.
O filme: um videoclipe de rap dos anos 90, com lente olho de peixe, numa padaria de Lisboa às quatro da manhã. O padeiro tende mais um pão. Umas mãos de luva branca fatiam-no e levam seis fatias em dez.
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A acampada dos idiotas úteis
Os jovens têm razões de sobra para protestar. Acamparam na praça errada.
A acampada chegou a Lisboa vinda de Espanha. Nasceu em Madrid, na Puerta del Sol, a 26 de setembro, depois do despejo de uma senhora de 87 anos, e espalhou-se por umas vinte cidades de Espanha. Barcelona tem hoje mais de seiscentas tendas na Praça da Catalunha. O Porto montou as suas na Praça D. João I a 10 de outubro. Lisboa seguiu-lhe o exemplo no Rossio a 17, logo a seguir à marcha da CGTP, com o lema "Não dá mais? Então monta a tua tenda!". Uma das porta-vozes explicou que o protesto ecoa o que se passa lá fora, "principalmente em Espanha". As assembleias fazem videochamadas com Madrid e já se associaram à greve geral espanhola de 11 de novembro.
Os números são modestos. No Porto, a 19 de outubro, 35 pessoas votaram continuar a dormir na praça. No Rossio havia cerca de cem tendas quando a polícia as levantou, na madrugada de 20, com 55 detidos. A intervenção policial deu ao movimento o que as tendas não davam: nessa noite, milhares encheram o Rossio e Ana Moura cantou a "Pedra Filosofal". Dizem que ninguém os organizou. Têm porta-vozes, equipa de comunicação, equipa de resposta, cantinas solidárias e, por trás, a plataforma Não Dá Mais, que junta cerca de quarenta coletivos e convoca manifestações por todo o país. A espontaneidade dá muito trabalho.
Têm todo o direito de estar ali. A Constituição garante-lhes a reunião e a manifestação, e a Inspeção-Geral da Administração Interna faz bem em investigar a carga do Porto. Não discuto a tenda. Discuto o caderno de reivindicações.
A raiva tem fundamento. Os preços das casas mais do que duplicaram desde 2017, diz o Banco de Portugal. No primeiro trimestre deste ano subiram 17,8% em termos homólogos, a maior subida da União Europeia nas contas do Eurostat. Entre 2021 e 2025, a população residente cresceu 825 mil pessoas. Em 2025 concluíram-se cerca de 27 mil casas novas. Numa década, estima o banco central, ficaram por construir cerca de 300 mil fogos. Os jovens não inventaram o problema. Enganaram-se no culpado.
O cartaz do Rossio pede seis coisas: revogar a nova lei do arrendamento, acabar com despejos e demolições sem alternativa, travar a compra de casas por fundos, mais habitação pública, recuperar os devolutos e tetos às rendas "verdadeiramente acessíveis". Pelo caminho juntaram-se o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, um imposto sobre os lucros dos bancos e o congelamento das propinas. Nenhuma destas medidas constrói uma casa. Várias destroem as que existem.
Comecemos pelos tetos. Portugal fez essa experiência durante mais de meio século. As rendas de Lisboa e do Porto ficaram presas em 1948, o 25 de Abril estendeu o congelamento ao país inteiro em 1974, e muitos contratos anteriores a 1990 continuam congelados até hoje. O resultado vê-se num passeio a pé na Baixa: prédios que o senhorio deixou cair porque a renda não pagava o telhado. Muitos dos devolutos que a acampada quer recuperar nasceram dos tetos que a acampada pede.
A Catalunha repetiu a experiência em março de 2024, com tetos nas zonas que a lei chama "tensionadas". Dois anos depois, assinavam-se menos 20% de contratos de arrendamento e as casas alugadas eram mais pequenas. Barcelona tem teto às rendas e seiscentas tendas na praça. Em São Francisco, Rebecca Diamond, Tim McQuade e Franklin Qian mediram o efeito de alargar o controlo das rendas: os senhorios abrangidos reduziram em 15% a oferta para arrendar, e as rendas da cidade subiram 5,1%. O teto protege quem já tem casa. Fecha a porta a quem chega, e quem chega é quase sempre jovem.
A lei que querem revogar vai no sentido contrário. Acaba com o travão de 2% nas rendas dos contratos novos, encurta de três para dois meses o prazo do despejo por falta de pagamento, deixa de limitar a caução a duas rendas, permite três meses de renda adiantada e começa a tirar do congelamento os contratos anteriores a 1990, conforme a idade e o rendimento do inquilino. Os detalhes discutem-se na especialidade. O sentido está certo.
Cada proteção que a acampada defende tem um beneficiário e uma vítima, e raramente são a mesma pessoa. Quem ganha com um despejo difícil é quem já tem contrato. Quem perde é quem procura casa. Um senhorio que sabe que pode levar meses ou anos a recuperar a casa de um inquilino que não paga arrenda menos e mais caro, e escolhe com mais cuidado. Pablo Casas-Arce e Albert Saiz compararam 102 cidades de 47 países: onde fazer cumprir um contrato de arrendamento nos tribunais custa mais, o mercado de arrendamento é mais pequeno. O limite à caução e às rendas adiantadas fecha a mesma porta por outro lado. A caução é a garantia de quem não tem outra. O jovem de 25 anos, com contrato a prazo e sem pais que possam ser fiadores, podia oferecer seis meses de caução para ganhar a casa a um candidato com fiador e emprego estável. A lei atual proíbe-o. Sem poder cobrar o risco, o senhorio escolhe pelo currículo, e o currículo do jovem é o mais curto da fila. Estas regras protegem os inquilinos que já o são contra os que querem sê-lo. A senhora de Madrid cujo despejo pôs Espanha a acampar merece proteção. Quem a deve pagar é o Estado, com os impostos de todos. Atirar a conta ao senhorio é despejar a próxima.
Até dentro da acampada há quem o perceba. Uma das pessoas que montou a tenda no Rossio contou ao Lisboa Para Pessoas que discorda de muitas destas soluções e não quer o mercado de arrendamento congelado.
Travar a compra por fundos é afugentar o dinheiro que constrói. Em boa parte da Europa, os prédios feitos de raiz para arrendar são pagos por fundos de pensões e seguradoras. Proibi-los não cria uma casa; afasta quem a podia construir. O especulador de que a acampada fala existe, mas é outro. É quem guarda um terreno vazio ou um prédio em ruínas à espera de que a escassez lhe faça o trabalho.
Há duas reivindicações com razão. A habitação pública é cerca de 2% do parque, das percentagens mais baixas da OCDE, segundo o Banco de Portugal. E os devolutos são uma vergonha. Mas um dos maiores proprietários do país, com muitos imóveis por usar, é precisamente quem a acampada quer pôr a construir: o Estado, cujo inventário o Tribunal de Contas considerou em 2021 incompleto e desatualizado. Quem não sabe o que tem dificilmente constrói depressa o que não tem.
O resto do caderno é folclore com custos. Tabelar o preço do pão e do gasóleo é a receita mais velha e mais falhada da economia, de Diocleciano a Caracas, e dá sempre filas e prateleiras vazias. Um imposto extra sobre os lucros dos bancos acaba pago, em parte, em crédito mais caro, também no da primeira casa. E as propinas. O Governo propõe atualizar pela inflação uma propina máxima de 697 euros por ano, congelada desde 2020. A acampada quer que o pedreiro que não foi à universidade continue a pagar, com os seus impostos, o curso de quem vai ganhar, em média, mais do que ele.
Os jovens têm razões de sobra para protestar, e tenho-o escrito muitas vezes. Há em Portugal tantos menores de 25 anos como maiores de 65, e o Estado gasta várias vezes mais com os segundos; os velhos, que votam mais, expropriam os novos. Cada residente, bebés incluídos, deve 25 mil euros de dívida pública e vai pagar 720 euros de juros em 2027. O PISA de 2025 deu a Portugal a pior nota de sempre em Leitura. Cada aumento acima do salário mínimo é tributado como se fosse um luxo. E 30% dos nascidos em Portugal com 15 a 39 anos vivem lá fora, cerca de 850 mil. Nenhuma destas razões está no cartaz do Rossio.
Daí o título. A expressão "idiotas úteis" atribui-se a Lenine sem prova de que a tenha escrito, mas descreve bem o que se passa no Rossio. Os jovens montam as tendas; outros recolhem os dividendos. A CGTP marchou a 17 pela habitação e pelos salários e acabou no Rossio, onde as tendas apareceram nessa tarde. Francisco Louçã e José Manuel Pureza, coordenador do Bloco, foram à praça. Rui Tavares também, e o Livre pediu um debate de urgência no Parlamento. O PS exige ao primeiro-ministro que deixe cair a lei das rendas, a que José Luís Carneiro chamou "desumana e injusta". Do outro lado, André Ventura usa-os ao contrário: partilhou o vídeo de uma marcha de apoio a Lula, no Brasil, para os pintar como gangues estrangeiros. Cada um tira da praça o que lhe serve. Nenhum lhes dá uma casa.
O PS é o caso mais desembaraçado. Governou de novembro de 2015 a abril de 2024, primeiro com a geringonça, depois sozinho. A construção tinha morrido antes, com a crise e a troika: em 2015 concluíram-se 7.148 casas novas. Os governos de António Costa tiveram oito anos para a ressuscitar. Nos quatro anos da geringonça, de 2016 a 2019, concluíram-se menos de dez mil casas por ano. Em oito anos completos de governo socialista foram 120 mil, menos do que só em 2002. Em 2018, a secretária de Estado da Habitação anunciou 170 mil casas com apoio público, para subir de 2% para 5% do parque em oito a dez anos. O 1.º Direito, lançado nesse ano, entregou quase 17 mil casas até janeiro de 2026, quase todas compradas ou reabilitadas; construídas de raiz, 1.568. O Banco de Portugal ainda conta 2% de habitação social. Pelo caminho, os mesmos governos limitaram a caução, travaram as rendas novas e inventaram o arrendamento forçado de casas devolutas. Oito anos deram isto. Agora o PS tem pressa.
Quem ganha, no fim, com o caderno da acampada? O dono de casa antiga, que vê o património valorizar com cada prédio que não se constrói. O inquilino de 1985, protegido por uma renda congelada que o senhorio paga por ele. O autarca que não licencia e culpa os fundos. Os governos que preferem um teto, que não custa nada ao Orçamento, a uma reforma do licenciamento, que custa votos. Os jovens do Rossio acampam pelos instalados, contra os jovens que vêm depois deles.
Enganaram-se na praça. A menos de um quilómetro do Rossio fica a Praça do Município, onde se decide quantas casas Lisboa deixa construir. Um pouco mais longe fica São Bento, onde se votam as pensões, os impostos e a dívida que lhes vão cair em cima. Montem lá as tendas. E levem uma reivindicação só, que cabe num cartaz: deixem construir.
Música 5: Avô, isto é a sério ou a brincar?
Dois factos. Os alunos de quinze anos que fizeram o PISA em 2025 tiveram o pior resultado de sempre em Leitura. Em 2040 terão trinta anos e herdarão o país que este Orçamento e os seguintes construírem. Cada residente em Portugal, bebés incluídos, deve 25 mil euros de dívida pública. Em 2027 pagará 720 euros de juros, mais 23% do que este ano.
O livro é dedicado aos meus filhos, a quem digo há trinta anos que Portugal tem dez anos para mudar, e aos meus netos, Mateo, Sofia e Emília: desta vez é a sério. Esta canção é a voz deles. Não tem ironia, ou tem a única que importa: a de uma criança a perguntar se os adultos estão a brincar.
O filme: os desenhos de caderno de uma neta, a lápis de cera, que ganham vida, e o avô que a levanta até à janela alta para que seja ela a abri-la.
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If machines do the work, income goes to who owns them. Fernández-Villaverde (@JesusFerna7026) shows saving limits AI growth as much as technology. The sharper lesson is ownership, and Europe, with its deposits and pay-as-you-go pensions, is doing it wrong.
Música 3: De pé, ó condenados do atraso. É a conta final: primeiro produzir, só depois dividir.
Dois factos. Portugal cresceu cerca de 1% ao ano durante um quarto de século e passou de 85% para 77% da média europeia. Nesses mesmos anos, a despesa com pensões públicas passou de 7,8% para 13% do PIB. Repartimos uma fatia cada vez maior de um bolo que mal cresce.
A proposta do livro é a regra que dá nome ao plano: primeiro produzir, depois dividir. Não há justiça social a dividir um bolo que não cresce; há a ilusão de a ter durante uns anos, paga pelos netos. Um país que cresce a 5% pode pagar pensões, escolas e hospitais melhores. Um país que cresce a 1% paga-os à custa de quem trabalha e do investimento que não faz, e vê os filhos partir.
O filme: propaganda soviética dos anos 30, a preto e branco com uma única cor, o vermelho. Uma padaria do tamanho de uma catedral, um bolo de andares, e a Repartição a cortar em fatias um prato vazio.
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A Uber não acabou com os táxis. Acabou com a ilusão de que o preço era o custo. A IA vai fazer o mesmo a tudo o que vive de saber regras: o saber fica quase de graça e o carimbo fica à vista. Oito espécies de renda e o que a máquina faz a cada uma.
Recebi o primeiro exemplar do livro, que já está em pré-venda 🤓
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Música 3: Ó Munique, ó Munique
O vira é o mesmo. O salário é que mudou.
Dois factos. Três em cada dez portugueses nascidos em Portugal com idades entre os 15 e os 39 anos vivem fora do país. E cada hora de trabalho em Portugal vale hoje 56% da média europeia, menos do que valia em 2000: trabalhamos mais horas do que a maioria da Europa e produzimos menos por cada uma, porque temos piores ferramentas.
A proposta do livro: a linha das chegadas. Não se traz ninguém de volta com saudade; traz-se com salários, e os salários vêm da produtividade, e a produtividade vem do capital por trabalhador, que caiu uma década inteira. Investir no que faz cada hora render mais é a única política de regresso que funciona.
O filme: um Super 8 de família. A roda do rancho encolhe na aldeia, de oito pares para um, e cresce na neve de Munique até estarem todos.
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